For unto us a Child is born, unto us a Son is given, and the government
shall be upon His shoulder; and his name shall be called Wonderful,
Counsellor, the Mighty God, the Everlasting Father, the Prince of Peace.
(Isaias 9:5)
Caros amigos,
Crianças,
Foi num dia como o de hoje, solstício de inverno no hemisfério norte, que nasceu Cristo, Salvador do Mundo, Verbo de Deus, Sabedoria encarnada, Deus que se fez homem para trazer paz a Israel.
Cristo era a luz do mundo, e escolheu nascer na noite mais fria e escura do ano. Cristo não falava, mas fez os anjos cantarem. Ele não podia andar, mas fez uma estrela cruzar os céus. Era pobre, mas seu nascimento foi anunciado aos pastores por um anjo. Cristo era pobre, mas diante dele se ajoelharam três reis vindos do oriente.
Deus, em sua magnífica beleza e em sua infinita bondade, fez seu único filho nascer entre os homens, para que Ele trouxesse a verdade e a fizesse brilhar nas trevas.
E Cristo Deus fez isso por amor aos homens. Se fez como nós, porque nos amava. E por esse amor devemos ter esperança.
Esperança, senhores, esperança. Para combatermos nossas imperfeições paulatinamente – mas sempre. Para combatermos os vícios do mundo, sistematicamente. Para procurarmos agir sempre com respeito ante a tremenda majestade de Deus, que se humilhou para nos salvar.
Todas as vezes que eu vejo a Lua cheia lembro-me dela, porque a Lua parece estar tão perto,
e ela que não vejo, está mais perto que a Lua alta no céu.
Diego Vinha
C´est la fatigue
Antoine de Saint-Exupery
Há três meses lancei um enigma para alguns amigos, e hoje o futuro escritor me revelou por messenger que havia descoberto a minha esfinge.
Pedi que ele enviasse a solução, um pouco descrente. Ele então escreveu: "Família".
E continuou: "no Havaí, família quer dizer OHANA, "não abandonarei mais"".
O futuro escritor penetrou no recanto mais profundo de minha alma, e lá se instalou. Ele tirou de minhas costas idéias centenárias que eu carregava como pedras desde os cinco anos de idade, e passou vinho e azeite sobre minhas feridas. Ele me conheceu, como nenhum outro homem me conhecera, mesmo eu falando tão pouco de meu passado.
Era esse o assunto da prosa com o futuro escritor, enquanto ele aguardava o ônibus para a universidade, na praça dos fradinhos de pedra.
O sol pintava de dourado os prédios de vidro que escondiam a praça. Era o primeiro dia da primavera. As pessoas se recolhiam em suas casas, e em si mesmas.
Poucos, muito poucos paravam para olhar a praça. Fradinhos de pedra com grossas correntes, um coreto de madeira com teto de latão, um chafariz de bronze inglês patinado pelo tempo com aquele verde das coisas antigas, de 1894. Os chorões, os jacarandás, as árvores de cascas grossas e folhas miúdas, o movimento das pessoas passando apressadas.
Ninguém parava para ver a praça, que parecia estar incompleta. Faltava alguém. Então o futuro escritor me contou a história do Adauto, o mendigo da praça.
Quase todas as tardes o futuro escritor atravessava a praça para comprar o lanche da tarde, antes de embarcar rumo à universidade. Sempre o mesmo pão de queijo recém assado que se vendia num café, num de seus cantos. E ao atravessá-la, parava por uns segundos para cumprimentá-lo.
Ele era um mendigo, vivia nas ruas há tempos. Fazia uns aviõezinhos de lata que eu havia visto pela primeira vez na mesa de um amigo. Fiquei encantando com as miniaturas, dons quixotes, aviões, carros, todo um jardim feito de lata, um universo próprio. Depois soube que era o Adauto o autor daquelas miniaturas.
Era uma das poucas coisas que se sabia a seu respeito. Ninguém sabia por que estava na rua, o que tinha feito na vida. Sabia-se que era de Campinas.
Ele era muito educado, muito polido. De modos simples, e de uma educação sem afetações. Suspeitava-se, era de família tradicional, mas ninguém sabia ao certo. Não era "de família" ou de "boa família" como Thomas Mann distingue nas "Confissões do Impostor Félix Krull", apenas se sabia que tinha bons modos, e era limpo.
Um dia o futuro escritor parou de pé no balcão enquanto comia o pão de queijo, e um sujeito começou a contar umas histórias do Adauto. Ele me relatou uma das histórias que ouviu.
"Sabe amigo, tinha um menino de nove anos que sempre vinha aqui na praça com um cachorrinho. Isso já faz uns dez anos. O Adauto vira e mexe brincava com o cachorrinho e com o menino. A avó estava sempre por perto, e parecia conhecer o Adauto antes dele ter vindo para as ruas, pois sempre trazia comida numa trouxinha e umas revistas para ele ler.
O menino andava com uma bombinha de asma no bolso, e uma bola nas mãos. Sempre que via o Adauto, corria pra ele e começavam a brincar de futebol no meio da praça. Ele parecia outra criança, e mostrava todos os dentes, brancos como os de um cavalo forte. O cachorrinho cresceu bastante naquele ano, ficou grande, era um belo cão de pelos dourados.
Até que um dia a bola correu para a avenida, e isso eram umas seis horas da tarde. Tinha todo aquele movimento de carros, como você tá vendo agora. O menino foi atrás da bola, o cachorro foi atrás do menino, e só se ouviu o guinchar dos freios dos carros.
Lá estava o menino, embaixo do carro. Só tinha arranhado um pouco o rosto, mas o cachorro gania como se todas as suas costelas tivessem quebrado. Pelo seu nariz jorrava sangue, mas mesmo assim ele avançava em qualquer um que tentasse chegar perto do menino.
O cachorro tinha se jogado sobre o menino, enquanto o para-choque do carro jogava-o longe. Salvou o menino, sem se importar com a própria vida.
O Adauto se aproximou pouco tempo depois, após se recobrar do susto. Junto chegaram a polícia e uma ambulância, enquanto a multidão se aglomerava em volta. Queriam linchar o Adauto, queriam matar o cachorro, queriam tocar no menino para ver se ele estava bem.
A avó do menino ficou lá, parada de onde estava. Sentou-se no banco mais próximo. Estava em estado de choque.
Mas o Adauto abriu caminho na multidão. Chamou o cachorro pelo nome, abraçou o cachorro enquanto este lambia o rosto do Adauto.
- Duque, calma Duque, eles são amigos. Não vão fazer mal para o Ricardo.
E impediu a polícia de matar o cachorro. Enquanto o Duque gania no colo do Adauto, e tentava escapar para seguir a ambulância, a ambulância levava o menino para o hospital.
A avó foi levada para casa por um adolescente, irmão mais velho do Ricardo.
Dias depois soube-se que a avó não tinha resistido, e morreu. O cachorro sofria muito, gania a noite, mais de saudades do dono do que da dor das costelas quebradas, mas a vizinhança se compadeceu e comprou remédios e comida para o cachorro. Ele passou a ser companheiro inseparável do Adauto.
E Adauto cuidava do Duque, esperando que o Ricardo viesse buscá-lo. O Ricardo não aparecia. Sem ninguém para levá-lo à praça, e com o irmão mais velho mais preocupado em estudar para o vestibular, o menino não ia mais à praça. Os pais tinham-no proibido de falar com estranhos, e tinham medo de que o Adauto pudesse ter outras intenções. Somente a avó o conhecia, mas agora ela estava morta.
O Ricardo ficou doente por causa do cachorro. Não comia, ia mal na escola, até que os pais compraram outro cachorrinho, e ele se animou um pouco mais. Mas não passava mais na praça. Já o Duque era companheiro inseparável do Adauto. Onde um ia, o outro ia atrás, e o mais estranho é que quando o Adauto sorria, o Duque parecia sorrir também. Não estou ficando louco, o Duque era um cachorro que sorria".
O Adauto faleceu pouco tempo depois do Duque ter sumido. Caia uma tempestade de tarde, e um engavetamento com vários carros o assustou, além dos trovões. Saiu correndo sem rumo, sob o olhar triste do Adauto. Depois de seu falecimento, um jornalista que conhecia o Adauto dos tempos áureos publicou uma reportagem sobre o famoso cabeleireiro que abandonara a sociedade para viver na rua. Eu mesmo li a reportagem com um pouco de incredulidade, reportagem que o futuro escritor me mostrou no ponto de ônibus, colada num pedaço de papelão, pendurado para os anônimos lerem.
O ônibus da universidade parou, e enquanto as pessoas embarcavam, vimos um rapaz atlético, vestindo um boné preto e calça xadrez tirar a reportagem e escrever no papelão. O futuro escritor me deu um abraço e embarcou rapidamente, enquanto o rapaz foi se sentar num banco da praça, onde um cachorro e uma namorada o esperavam.
Movido pela curiosidade, fui ler o que o rapaz tinha escrito. O futuro escritor ligou para o meu celular naquele instante, e eu li a mensagem para ele.
"Cristiane, desculpe eu ter tirado a matéria de jornal sobre seu pai daqui, mas gostaria de guardar pelo menos uma lembrança dele. Abraços, Ricardo".
E então vi o Ricardo levantando-se com a namorada e o cachorro, passeando pela lojinha do pão de queijo, sumindo por trás do chafariz de bronze, coberto pela sombra dos chorões e das árvores de casca grossa e folhas miudinhas. Lá ia ele, misturando-se com os jacarandás, levando uma lembrança da praça, de uma pessoa que não a olhava com indiferença. Haviam outros duques brincando perto do coreto. Já o sol não pintava de dourado os prédios de vidro, e a noite caia silente. E o Adauto não estava mais lá. Era uma matéria numa folha de jornal, um aviãozinho de lata que ficava sobre uma escrivaninha, uma memória da infância de um menino chamado Ricardo.